À la rencontre de Gisèle Pineau
- Gabrielle Toson

- há 19 horas
- 3 min de leitura
La mémoire est une geôle.
Là, les temps sont abolis.
Là, les morts et les vivants sont ensemble.
Là, les existences se réinventent à l’infini.

Em tradução literal: “A memória é uma prisão. / Nela, os tempos são abolidos. / Nela, os mortos e os vivos estão reunidos. / Nela, as existências se reinventam infinitamente”.
Por meio desses versos, mergulhei pela primeira vez na literatura de Gisèle Pineau. Eu estava em uma biblioteca no sul da Martinica, e o livro era Mes quatre femmes, um récit sobre mulheres antilhanas, memórias transgeracionais, violência e acolhimento que, anos depois, se tornaria a base da minha dissertação de mestrado em Letras.
Mais avant de poursuivre ce témoignage, laissez-moi me présenter : eu sou a Gabrielle, professora de francês e pesquisadora na área de literaturas francófonas, enchantée. Um dos meus primeiros contatos com o universo caribenho aconteceu durante essa imersão na Martinica, entre 2018 e 2019. Na época, eu era estudante de graduação e sabia muito pouco sobre a França ultramarina. Cheguei no susto, de mala e cuia, para uma temporada de sete meses.
Ao longo desse período, descobri que o Caribe francófono é de uma complexidade que poucas pessoas conseguem colocar em palavras, devido principalmente à diversidade de termos, conceitos, perspectivas, línguas e culturas que coexistem em constante associação e oposição. O imaginário popular que nos leva a pensar em paisagens paradisíacas tem, sim, um bom tanto de verdade: a abundância de beleza e alegria leva qualquer pessoa ao embasbacamento. Ao mesmo tempo, quem olha mais de perto também se depara com uma série de desigualdades e com as marcas da violência colonial que atravessa a região há séculos.
Diante de tudo isso, ler autoras e autores da região é uma estratégia essencial para compreender esse espaço. E aqui eu volto para Madame Pineau, cuja voz e o contar se tornaram uma importante companhia de aventuras e, até hoje, são o lugar para onde volto cada vez que quero me aprofundar nos estudos sobre a francofonia ou rememorar aqueles primeiros meses de uma das experiências mais significativas da minha vida. Justamente por isso, é com o cœur réchauffé que apresento essa escritora tão querida à comunidade da École Pot-Pourri. Allons-y, je vous jure qu’elle va vous émerveiller !
Une écriture entre deux mondes
Gisèle Pineau passou grande parte da vida alternando vivências entre a França hexagonal e o Caribe francófono. Leitora ávida, viajante curiosa e ouvinte atenta, ela transformou em literatura tanto a própria história quanto as histórias das pessoas que cruzaram seu caminho. Até o momento, são mais de quarenta anos de dedicação à escrita e cerca de trinta obras completas, entre romances, contos e ensaios.
Pineau se tornou uma das vozes mais importantes e prolíficas da sua geração, com publicações constantes desde o início da década de 1990, reconhecimento da crítica e traduções para diversas línguas. Esse percurso foi reconhecido, por exemplo, em 2025, com o título de doutora honoris causa pela University of St Andrews, no Reino Unido.
Me arrisco a dizer que parte da força de seu legado vem de uma perspectiva singular, na qual a vida no Caribe surge, frequentemente, atravessada pelo olhar da Métropole. Suas narrativas partem de perspectivas e saberes “de dentro”, mas também carregam o repertório e as experiências de alguém que conhece as ideias e os desafios do mundo “de fora”.
Un papillon dans la cité, livro escolhido para a próxima edição do Clube de Leitura da Pot-Pourri (conforme contamos aqui), é o seu primeiro romance, publicado em 1992. A história traz muito da experiência da própria autora entre essas “duas Franças” que compõem sua identidade, e se trata de uma boa porta de entrada para esse estilo meio francês, meio crioulo, que caracteriza sua escrita. Um convite, enfim, para que vocês façam também o seu próprio encontro inoubliable com Gisèle Pineau. Alors, on part à la découverte ?!









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