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À la rencontre de Gisèle Pineau

La mémoire est une geôle.

Là, les temps sont abolis. 

Là, les morts et les vivants sont ensemble. 

Là, les existences se réinventent à l’infini


Em tradução literal: “A memória é uma prisão. / Nela, os tempos são abolidos. / Nela, os mortos e os vivos estão reunidos. / Nela, as existências se reinventam infinitamente”.



Por meio desses versos, mergulhei pela primeira vez na literatura de Gisèle Pineau. Eu estava em uma biblioteca no sul da Martinica, e o livro era Mes quatre femmes, um récit sobre mulheres antilhanas, memórias transgeracionais, violência e acolhimento que, anos depois, se tornaria a base da minha dissertação de mestrado em Letras.


Mais avant de poursuivre ce témoignage, laissez-moi me présenter : eu sou a Gabrielle, professora de francês e pesquisadora na área de literaturas francófonas, enchantée. Um dos meus primeiros contatos com o universo caribenho aconteceu durante essa imersão na Martinica, entre 2018 e 2019. Na época, eu era estudante de graduação e sabia muito pouco sobre a França ultramarina. Cheguei no susto, de mala e cuia, para uma temporada de sete meses.


Ao longo desse período, descobri que o Caribe francófono é de uma complexidade que poucas pessoas conseguem colocar em palavras, devido principalmente à diversidade de termos, conceitos, perspectivas, línguas e culturas que coexistem em constante associação e oposição. O imaginário popular que nos leva a pensar em paisagens paradisíacas tem, sim, um bom tanto de verdade: a abundância de beleza e alegria leva qualquer pessoa ao embasbacamento. Ao mesmo tempo, quem olha mais de perto também se depara com uma série de desigualdades e com as marcas da violência colonial que atravessa a região há séculos.


Diante de tudo isso, ler autoras e autores da região é uma estratégia essencial para compreender esse espaço. E aqui eu volto para Madame Pineau, cuja voz e o contar se tornaram uma importante companhia de aventuras e, até hoje, são o lugar para onde volto cada vez que quero me aprofundar nos estudos sobre a francofonia ou rememorar aqueles primeiros meses de uma das experiências mais significativas da minha vida. Justamente por isso, é com o cœur réchauffé que apresento essa escritora tão querida à comunidade da École Pot-Pourri. Allons-y, je vous jure qu’elle va vous émerveiller !


Une écriture entre deux mondes


Gisèle Pineau passou grande parte da vida alternando vivências entre a França hexagonal e o Caribe francófono. Leitora ávida, viajante curiosa e ouvinte atenta, ela transformou em literatura tanto a própria história quanto as histórias das pessoas que cruzaram seu caminho. Até o momento, são mais de quarenta anos de dedicação à escrita e cerca de trinta obras completas, entre romances, contos e ensaios. 


Pineau se tornou uma das vozes mais importantes e prolíficas da sua geração, com publicações constantes desde o início da década de 1990, reconhecimento da crítica e traduções para diversas línguas. Esse percurso foi reconhecido, por exemplo, em 2025, com o título de doutora honoris causa pela University of St Andrews, no Reino Unido.


Me arrisco a dizer que parte da força de seu legado vem de uma perspectiva singular, na qual a vida no Caribe surge, frequentemente, atravessada pelo olhar da Métropole. Suas narrativas partem de perspectivas e saberes “de dentro”, mas também carregam o repertório e as experiências de alguém que conhece as ideias e os desafios do mundo “de fora”.


Un papillon dans la cité, livro escolhido para a próxima edição do Clube de Leitura da Pot-Pourri (conforme contamos aqui), é o seu primeiro romance, publicado em 1992. A história traz muito da experiência da própria autora entre essas “duas Franças” que compõem sua identidade, e se trata de uma boa porta de entrada para esse estilo meio francês, meio crioulo, que caracteriza sua escrita. Um convite, enfim, para que vocês façam também o seu próprio encontro inoubliable com Gisèle Pineau. Alors, on part à la découverte ?!



Eu realmente fui para a Martinica de mala e cuia.
Eu realmente fui para a Martinica de mala e cuia.
Um exemplo de paisagem paradisíaca, no sul da ilha. 
Um exemplo de paisagem paradisíaca, no sul da ilha. 

Alusão às raízes indígenas do povo antilhano em um muro na comuna de Le Marin, no sul da Martinica.
Alusão às raízes indígenas do povo antilhano em um muro na comuna de Le Marin, no sul da Martinica.
Mais um exemplo de paisagem paradisíaca, desta vez no norte da ilha.
Mais um exemplo de paisagem paradisíaca, desta vez no norte da ilha.

Casa onde nasceu a imperatriz Joséphine de Beauharnais, esposa de Napoléon Bonaparte.
Casa onde nasceu a imperatriz Joséphine de Beauharnais, esposa de Napoléon Bonaparte.
Trecho de Solibo Magnifique, de Patrick Chamoiseau, pintado no muro de uma escola. Em tradução literal: “Oh, Oiseau, você quer independência, mas carrega essa ideia como algemas. Primeiro: liberte-se diante da ideia. Depois: avalie o que, em sua mente e em seu íntimo, a aprisiona. Essa é, antes de tudo, a sua luta”.
Trecho de Solibo Magnifique, de Patrick Chamoiseau, pintado no muro de uma escola. Em tradução literal: “Oh, Oiseau, você quer independência, mas carrega essa ideia como algemas. Primeiro: liberte-se diante da ideia. Depois: avalie o que, em sua mente e em seu íntimo, a aprisiona. Essa é, antes de tudo, a sua luta”.

 
 
 

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