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Écriture de soi: o que é?

Nesse sábado, começamos um ciclo de clubes de leitura muito especial aqui da Pot-Pourri.

O ciclo se chama Écritures de soi, e a autora escolhida para lermos é Annie Ernaux. Os encontros vão seguir um formato especial: leitura em voz alta, ou seja, leremos os livros de Ernaux juntos, em voz alta, ao longo dos encontros. O primeiro encontro já foi incrível! Então bora entender o que é essa "escrita de si" que dá nome ao ciclo?


Escrever sobre si mesmo: uma tradição com história

A expressão écriture de soi pode parecer autoexplicativa à primeira vista. Afinal, quem escreve um diário, uma autobiografia ou uma carta íntima já está, de certo modo, praticando uma escrita de si. Mas no campo dos estudos literários, o termo carrega um sentido mais preciso do que isso.

Foi o teórico francês Philippe Lejeune quem mais aprofundou esse estudo no século XX. Em Le Pacte autobiographique (1975), ele propôs uma ideia instigante: a autobiografia se define menos pelo que conta do que pelo contrato que estabelece com o leitor. O autor se compromete, de forma explícita ou implícita, a dizer a verdade sobre si mesmo. Lejeune chamou isso de "pacto autobiográfico": a promessa de que o nome na capa, o narrador e o personagem são a mesma pessoa.

Parece simples, mas essa ideia abriu um campo enorme de perguntas. O que significa, afinal, dizer a verdade sobre si mesmo? É possível narrar a própria vida sem, de alguma forma, ficcionalizá-la? O "eu" que escreve é o mesmo "eu" que viveu?


Da autobiografia à autoficção: os limites do "eu"

Durante muito tempo, o gênero dominante da escrita de si foi a autobiografia clássica: um relato retrospectivo em que alguém narra sua própria existência, com atenção à trajetória pessoal e à formação da própria identidade.

Mas em 1977, o escritor Serge Doubrovsky criou um novo termo para dar nome ao que ele mesmo estava fazendo: autoficção. A palavra apareceu na quarta capa do seu romance Fils e veio para nomear algo que a autobiografia tradicional já não conseguia abarcar: uma escrita que embaralha deliberadamente ficção e realidade, sem se comprometer com a verdade tal como Lejeune a entendia.

Essa virada não era só uma questão de classificação literária. Era, no fundo, uma questão filosófica: se a autobiografia depende de um pacto de verdade com o leitor, o que acontece quando esse pacto é colocado em dúvida? A autoficção não responde, ela prefere viver na tensão.


Escrever o "eu" para falar do "nós"

E aqui chegamos ao ponto que mais nos interessa — e que justifica o nome do nosso ciclo.

O que a écriture de soi contemporânea descobriu é que escrever sobre si mesmo não precisa ser um ato solitário ou narcísico. Pelo contrário: o "eu" pode ser uma porta de entrada para o coletivo. Uma vida individual carrega dentro de si as marcas de uma classe social, de uma geração, de um momento histórico. Tornar essas marcas visíveis pode ser, também, um ato político.

Na literatura francófona contemporânea, ninguém articulou isso com mais precisão do que Annie Ernaux. Em entrevistas, ela explicou que seu projeto literário não é contar a sua vida, é usar a própria experiência como instrumento para analisar uma realidade mais ampla.

O "eu" que ela usa nos livros, ela mesma descreveu como uma forma impessoal, às vezes mais uma fala do outro do que uma fala de si: uma forma transpessoal. Ela não tenta se autoficionalizar, mas busca capturar, na suaexperiência, os sinais de uma realidade.

Para Ernaux, o que ela faz não é autobiografia, nem bem autoficção. É algo que fica no meio, ou talvez além dos dois: uma voz que parte do individual para alcançar o que é comum a todos, sem nunca fingir que esses dois planos se separam com facilidade.

É essa voz que vamos ouvir juntos — literalmente — nos nossos encontros do clube. :)


 
 
 

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