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A história do Palais de la Porte Dorée, em Paris

Já fazia um tempo que, por meio dos estudos, das leituras de autores francófonos e das notícias em páginas de Instagram que sigo, eu acabava sempre esbarrando em alguma informação sobre o Musée de l’Histoire de l’immigration e sobre o Palais de la Porte Dorée. O Musée, aliás, localiza-se dentro do Palais, edifício que fica em frente ao Bois de Vincennes, no leste de Paris. Assim, ao organizar a viagem que fiz em março de 2026 para a capital francesa, sabia que não podia deixar de fora do meu roteiro esse museu! Era um dos pontos que ainda não tinha visitado na cidade!

Foi, de fato, uma visita incrível e que me marcou muito! Por isso, decidi falar um pouco sobre esses espaços e sua história no post de hoje. C'est parti ?


A grande Exposição Colonial de 1931

Tudo começa aqui: o Palais de la Porte Dorée foi construído para um evento gigantesco e absurdo, a Exposition coloniale internationale de 1931. Naquele momento, a França possuía um dos maiores impérios coloniais do mundo, com territórios na África, no Caribe, no Pacífico e no Sudeste Asiático. A exposição tinha um objetivo muito claro: mostrar aos franceses a grandeza e a utilidade desse império.

O evento aconteceu no Bois de Vincennes, entre maio e novembro de 1931, e foi um enorme sucesso de público. Cerca de 30 milhões de visitantes passaram por lá, nessa cidade temporária construída com diferentes pavilhões representando as colônias francesas e também territórios de outros impérios europeus. Cada espaço tentava recriar uma atmosfera “exótica” associada ao território representado. Havia templos inspirados na arquitetura do Camboja, aldeias africanas reconstruídas, jardins tropicais e mercados coloniais.

O Palais de la Porte Dorée era o edifício principal do evento. Ele se chamava então Palais des Colonies e servia como vitrine da riqueza do império. Sua fachada é coberta por um imenso baixo-relevo do escultor Alfred Janniot, onde aparecem navios carregados de mercadorias, elefantes e animais exóticos, plantas tropicais e figuras humanas representando povos colonizados.

Dentro do edifício, o grande salão central, o Forum, também foi decorado com murais e pinturas que exaltavam a expansão colonial e a ideia de uma “missão civilizadora” da França. Hoje, esses elementos arquitetônicos são considerados testemunhos importantes da mentalidade colonial da época.

Tudo foi concebido para transmitir uma ideia muito clara: a França como centro de um mundo vasto e diverso.

Um dos maiores absurdos dessas exposições coloniais é que elas não exibiam apenas objetos, paisagens ou produtos. Em muitos casos, pessoas vindas das colônias eram levadas para a Europa e instaladas em espaços que simulavam aldeias tradicionais. Elas realizavam atividades cotidianas — cozinhar, trabalhar, cantar ou dançar — diante do público.

Hoje sabemos que esse tipo de apresentação fazia parte de um fenômeno chamado zoológicos humanos. Essas exibições existiram em vários países europeus desde o final do século XIX.

Na exposição de 1931, milhares de pessoas vindas de territórios coloniais participaram dessas encenações. Para o público da época, isso era apresentado como uma forma de “descobrir outras culturas”. Mas, na prática, essas representações reforçavam uma visão hierarquizada do mundo, onde os europeus eram vistos como civilizados e modernos, enquanto os povos colonizados eram apresentados como exóticos ou “primitivos”. Hoje, esse aspecto da exposição é amplamente criticado e analisado por historiadores como um exemplo de propaganda colonial.

O que ainda hoje existe também no prédio é o Aquarium Tropical du Palais de la Porte Dorée. Ele também foi criado para a exposição de 1931. A ideia era mostrar aos visitantes a biodiversidade dos territórios tropicais do império francês.

Na época, os aquários exibiam peixes vindos da África, da Ásia e da América do Sul. Era uma maneira de transformar o império colonial em espetáculo científico e educativo. O aquário continua funcionando até hoje e é um dos mais antigos de Paris. Como o Musée de l'Histoire de l'immigration era meu foco, acabei não visitando o Aquarium...

Após a Segunda Guerra Mundial, o sistema colonial começou a entrar em crise. Entre as décadas de 1940 e 1960, grande parte dos territórios coloniais franceses conquistou a independência: Vietnã, Senegal, Costa do Marfim, Madagascar, entre muitos outros. Com o fim progressivo do império, o significado do Palais de la Porte Dorée começou a mudar. O edifício já não podia mais ser simplesmente um monumento celebrando a colonização.

Durante décadas, ele abrigou o Musée des Arts d’Afrique et d’Océanie, que apresentava artes e objetos provenientes das antigas colônias. Boa parte da coleção desse museu mudou de localização e foi para o Musée du Quai Branly, também em Paris. E, no final do século XX, começou a surgir um novo debate, mais contemporâneo e consciente: como contar a história da imigração e da diversidade cultural da França?


A criação do Museu da História da Imigração

Foi nesse contexto que nasceu o Musée national de l'histoire de l'immigration, inaugurado em 2007 dentro do próprio palácio. E a escolha do lugar é profundamente simbólica.

O edifício que antes celebrava o império colonial agora abriga um museu dedicado às pessoas que vieram de outros lugares — muitas delas justamente de antigas colônias — para viver na França. Ou seja: a história da colonização e a história da imigração se encontram no mesmo espaço.

Senti também que o museu tem uma abordagem bastante humana e sensível. Foi, inclusive, ouvindo essa mesma opinião de uma amiga da Guadeloupe (território ultramarino francês) que tive ainda mais vontade de conhecer o museu.

Em vez de contar apenas uma história política ou econômica das migrações, ele reúne também objetos pessoais, cartas, fotografias e depoimentos de migrantes, assim como obras de arte contemporânea que dialogam com o assunto das migrações. Além disso, um dos espaços que mais amei foi uma sala musical que reunia uma playlist de grandes sucessos franceses compostos e cantados por artistas imigrantes. Lembro de uma família francesa que entrou nessa sala e, ao reconhecerem a música que estava tocando, comentaram entre eles, em tom de surpresa, que era curioso como não sabiam que aquele clássico da canção francesa era composto por um imigrante...


Um dos aspectos mais interessantes desse museu é que ele mostra como essas migrações transformaram profundamente a sociedade francesa, na música, na literatura, na culinária, na política e no cotidiano das cidades. E mostra também uma face da França que normalmente se tenta esconder: um país colonizador e que, embora sempre tenha recebido migrantes e imigrantes, também possui diversas políticas violentas contra esses indivíduos. Isso tudo é mostrado através de documentos e testemunhos.

Ao caminhar pelo Palais de la Porte Dorée, é impossível não sentir essa sobreposição de histórias. De um lado, a arquitetura monumental art déco e os relevos que glorificam o império colonial. De outro, as duras histórias de migração, de lutas, de deslocamentos, de racismo, de adaptação e de criação cultural. Essa tensão, que é parte do próprio projeto do museu, foi o que mais me impactou. Se tu tá pensando em ir pra Paris ou está indo em breve, recomendo demais a visita! E depois tu ainda pode fazer um passeio pelo Bosque de Vincennes: imersão completa nessa parte da História da França!

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