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Sylviane Vayaboury e a literatura contemporânea da Guiana Francesa

Quando pensamos na literatura francesa, raramente incluímos a literatura escrita em francês dos Departamentos, Regiões e Territórios Ultramarinos. Daí vem uma enxurrada de discussões acadêmicas sobre o que é literatura francesa, literatura francófona e os porquês dessa distinção, principalmente quando se trata de territórios que ainda pertencem oficialmente à França. Minha intenção aqui não é mergulhar nesse debate profundo. No entanto, é verdade que lá no horizonte desse mar de escritas em francês, alguns autores do Caribe têm ganhado traduções para o português e conquistado o público brasileiro. 

Talvez você já tenha ouvido falar de Maryse Condé e Patrick Chamoiseau, por exemplo, ambos escritores que se dedicam a contar histórias de suas ilhas natais (Guadalupe e Martinica) e de seus antepassados em África. Mas e quando você pensa na Guiana Francesa, vem alguém à mente? 

Nossa pequena vizinha – que divide conosco a maior fronteira terrestre da França, diga-se de passagem – é pouco lembrada por aqui, e não só quando falamos de literatura. O Brasil e a Guiana Francesa, porém, compartilham muitos aspectos culturais! Alguns artistas guianenses até já tiveram sua era de ouro no nosso país. Busca aí no Youtube o clipe da música C’est bon pour le moral e depois me diz aqui se você não conhece esse hit dos anos 1980 que se popularizou por aqui na voz da Rita Cadillac. 

Mas voltando para a literatura, alguns escritores guianenses também ficaram bastante conhecidos, principalmente no mundo francófono. O mais lembrado é, certamente, Léon-Gontran Damas, que esteve junto a Aimé Césaire e Léopold Sédar Senghor no início do que mais tarde a gente chamaria de movimento da Negritude. Mas Damas estava escrevendo nos anos 1930, você vai me dizer, o que se escreve hoje na Guiana Francesa?

Pois bem… Esse ano, para abrir nosso Ciclo de Mulheres Caribenhas (vem muuuuita coisa legal por aí, fica de olho!), escolhemos o livro La Crique (2009), da autora guianense Sylviane Vayaboury. Essa leitura, que nos convida a adentrar a cultura da capital Caiena e também a flora, a fauna e as diferentes comunidades que ali habitam, cheia de complexidade e poeticidade, me conquistou há alguns anos e agora eu tenho a oportunidade de apresentá-la à comunidade francófona da Pot-Pourri! 

Vayaboury nasceu em Caiena em 1960, mas ainda criança foi morar em Guadalupe, terra natal de seu pai, com seus avós. Além de escritora, ela também é professora. Trabalhou na França hexagonal e hoje trabalha em Caiena, principalmente com crianças autistas e com dificuldade escolar. 

Ela relata sua infância crioula em seu livro de estreia Rue Lallouette prolongée (2006), uma autobiografia que nos apresenta personagens chaves de seu percurso de vida triangular (entre Guiana Francesa, Antilhas e França hexagonal), e sobretudo nos faz descobrir a história da Guiana Francesa, tão atrelada ao ouro e ao garimpo, assim como à prisão de trabalhos forçados que ali existiu até o século passado. 

Mais tarde, Sylviane Vayaboury se dedica à ficção. Primeiro com La Crique (2009), romance de antecipação, que prevê os problemas relacionados à especulação imobiliária no bairro pobre da capital, e com seu último livro, Exhibition de l’invisible (2015), também ambientado na Guiana Francesa, que nos conta a história de um amor atormentado – como descreve a própria autora – entre duas pessoas que eventualmente descobrem um passado em comum. 

Além dos três romances, Vayaboury já publicou textos curtos em diversas coletâneas junto de outros autores. Ela também já esteve no Brasil, para eventos literários no Amapá e no Pará. Sua trajetória literária, ainda que breve (até o momento), é bastante reconhecida na Guiana Francesa. De fato, a autora consegue colocar em palavras esse pedacinho de terra ao norte da América do Sul tão cheio de diversidade, complexidades, de pessoas interessantes e de natureza abundante. Ela é um dos grandes nomes da literatura contemporânea guianense e, além disso, se dedica a dar voz a personagens femininas. 

E aí, que tal ler mais mulheres caribenhas e descobrir a Guiana Francesa através dos livros?


 
 
 

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