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O escritor Alain Mabanckou e a francofonia em disputa

Desde 2017, data da criação da Pot-Pourri, que falamos muito nas redes sociais e em aulas sobre a francofonia. Quem é aluno vai lembrar e saber que, até nos dias de hoje, temos o hábito de usar esse vídeo aqui já em aulas iniciantes de nível A1 para sensibilizar vocês em relação ao fato de que não se fala francês apenas na França, mas sim em vários países e continentes, sendo que o continente com maior número de falantes de francês é a África. No entanto, esse vídeo tem um problema. No final dele, explica-se que falar francês ao redor do mundo é muito importante para a França, pois assim ela segue crescendo econômica e politicamente. Ok, o vídeo não traz essas palavras, já que é um vídeo para um público infantil, mas é isso que ele quer dizer. Nas aulas, uso sempre essa parte final para suscitar certa reflexão nos alunos, quando o vídeo menciona que “une langue transmet aussi les valeurs et la culture du pays où elle est née”. Ora, se a língua francesa é oficial e é falada em muitos países, não seria estranho ela transmitir os valores e a cultura (no singular) apenas do país onde “ela nasceu” (nesse caso, da França)? Essa língua não deveria transmitir outros valores? Outras culturas?


Para nos ajudar a pensar nisso, o escritor congolês Alain Mabanckou é uma ótima referência. Nascido na República do Congo, em 1966, 6 anos após seu país se tornar independente da França, o autor e professor de literatura francófona da Universidade da Califórnia já se negou a ser “embaixador” da política de francofonia do governo francês e em 2018 não mediu palavras ao escrever uma carta aberta ao presidente Emmanuel Macron na ocasião do Dia Internacional da Francofonia. O atual presidente francês teria convidado o autor para se somar a ele na comemoração do dia para, diante da Academia Francesa, demonstrar seu engajamento com a língua francesa e com a promoção da Francofonia. Em resposta, Alain Mabanckou negou o convite, afirmando que essa Francofonia de F maiúsculo que Macron tanto defende e quer promover, uma Francofonia institucional, é, na verdade, uma “continuação da política externa da França nas suas ex-colônias”.

A crítica de Mabanckou vai na mesma direção da nossa pergunta no início do texto: o escritor acusa a França de impor essa língua e os valores franceses aos países colonizados. Essa Francofonia, representada pela Organisation Internationale de la Francophonie (OIF) e institucionalizada em 1970, 10 anos depois das independências das colônias francesas africanas, teria ajudado a França a seguir dominando esses países. Mabanckou cita como exemplo as próprias Constituições de países africanos que são escritas em francês, inspirando-se nas legislações francesas e inclusive favorecendo a dependência econômica e militar das ex-colônicas com a República Francesa. O que apenas atualiza uma hierarquia política e, consequentemente, linguística. Não à toa, por exemplo, estamos vendo recentemente diversos golpes de estado em alguns países da África Ocidental, como no Mali, onde o país decidiu banir a língua francesa como língua oficial a fim de afastar a dependência do governo francês.

Voltando ao autor congolês, Alain Mabanckou, apesar de ter se recusado diversas vezes a representar oficialmente a Francofonia, é um autor extremamente comprometido no que diz respeito à francofonia – escrita assim, com “f” minúsculo. Em um artigo de 2006, do jornal Le Monde, Mabanckou diz que “a francofonia não é propriedade das letras francesas”. O autor que leremos no nosso próximo clube de leitura em francês aqui na escola é um dos escritores francófonos mais reconhecidos internacionalmente. Boa parte desse reconhecimento reside no fato de que suas obras, escritas em francês, veiculam as culturas africanas, as histórias e personagens de seu país, criando assim um imaginário africano em francês. Ele mesmo afirma que, ainda que escreva em francês, seu francês é permeado por um ritmo que advém das línguas orais africanas faladas no Congo. Nesse mesmo artigo de 2006, ele complementa dizendo que na francofonia em que acredita, os autores francófonos não virão “mais de tal país, de tal continente, mas de tal língua” – do francês.

Em outro texto no mesmo ano de 2018, ainda ressoando o convite de Macron, Mabanckou se junta ao filósofo e cientista político camaronês Achille Mbembe para aprofundar a crítica já presente na carta aberta anterior. Nesse texto, os autores refletem sobre como a língua francesa falada no Senegal, no Mali ou no Congo, por exemplo, possui suas características, veicula e é ferramenta de produção de muitas filosofias e pensamentos, mas que normalmente não são exaltados ou reconhecidos como aqueles produzidos na França. Da mesma maneira, eles comentam que se entende como “francofonia” tudo aquilo que é externo à França e, como “francófono”, todo “estrangeiro” que fala francês. Ou seja, um francês nunca é entendido como um “francófono”, ele é sempre visto como “francês”. Para os escritores, aí está o problema, uma vez que dentro das apelações “francofonia” e “francófono” deveríamos incluir a França e os franceses, e não tê-los como pontos referenciais em oposição a outras “nacionalidades francófonas”. Mabanckou e Mbembe se opõem então a “qualquer definição da língua francesa que tenha como fundamento uma ideologia nacionalista”.

É a partir dessa consciência linguística e política que Mabanckou nos entrega obras marcadas por uma prosa vibrante, humorística e profundamente reflexiva, que abordam questões de identidade, colonialismo, política e experiências da diáspora africana – tão importantes, ao meu ver, para que compreendamos e nos letremos cada vez mais sobre a dita francofonia. No seu premiado livro “Verre cassé” (“Copo quebrado”), de 2005, temos uma narrativa única sobre a vida dos imigrantes africanos na França. No livro “Mémoires de porc-épic” (“Memórias de porco-espinho”), de 2006, que leremos no clube de leitura, Mabanckou combina perfeitamente o folclore africano com uma narrativa moderna para criar uma história cativante sobre um porco-espinho que narra a história de  sua vida. Já em “Petit Piment” (“Moisés Negro”), de 2015, temos a história comovente e ao mesmo tempo belíssima da infância e adolescência de um jovem órfão em um orfanato em Congo-Brazzaville durante os anos 1970.

Enquanto falante de francês e principalmente enquanto professora, alguém que ensina e promove essa língua cotidianamente, tendo a concordar com posicionamentos de autores como Mabanckou. Enxergo ainda em sua literatura uma riqueza infinita de imaginários e culturas em francês que nos ajudam muito a deslocar nosso olhar eurocêntrico. Como podemos perceber ao nos comunicarmos com francófonos - todos eles - e ao lermos literatura como a de Mabanckou, o francês atual é caracterizado pela riqueza de seus falantes, que vivem em sociedades diversas, que falam outras línguas, não somente o francês. E tudo isso torna essa língua ainda, sempre e cada vez mais rica e plural, divulgando e representando muito mais do que os símbolos e valores franceses.

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